ResgatandoLenin

“Os comunistas desdenham de ocultar suas visões e objetivos. Eles abertamente declaram que seus objetivos só podem ser alcançados pelo derrubamento à força das condições sociais existentes. Que a classe dominante trema perante a Revolução Comunista! O proletariado nada tem a perder além de suas correntes. Tem um mundo a ganhar.” Manifesto Comunista

 

Lenin ou Kautsky?

Hoje nós vivenciamos um retrocesso/recuo massivo do Leninismo na esquerda. Sob o ataque vindo da crise mundial, a classe trabalhadora e os oprimidos movem-se para a esquerda em oposição aos seus efeitos – austeridade, precarização, desemprego massivo e repressão política – lançando-se a Primavera Árabe, manifestações, ocupações e lutas armadas contra os ditadores burgueses. As massas estão famintas por ideias de como desafiar e vencer o capitalismo. Mas ainda não há um partido revolucionário de massas para tanto. A esquerda revolucionária move-se no sentido de apresentar essa direção.

No entanto, essa esquerda tem medo de ser identificada com a falência do comunismo e do socialismo no século XX. E isso está há milhas da “Ditadura do Proletariado”. Para apaziguar as massas radicalizadas, grande parte da esquerda está reinventando o seu marxismo aos moldes do socialismo Chavista do século XXI, ou ao “socialismo democrático” do amplo partido marxista da Segunda Internacional, associado a Karl Kautsky. Isso tanto relega o bolchevismo à um histórico fim de linha, ou pretende fazer os Bolcheviques e Lenin, em particular, nada mais do que Kautskys russos. Trotsky é também um alvo, pois renunciou à sua conciliação com os mencheviques e Kautsky para juntar-se à Lenin e os Bolcheviques em 1917. Trotsky se afirma ou cai com Lenin.

Como nós vemos, há professores burgueses falando sobre Marxismo, entrevista de WSJ Roubini, a revista Time divulgando como matéria de capa “Repensando Marx”, Hugo Chavez posando de marxista com conexões com Cuba e China, a esquerda não possui credibilidade a não ser que comece a reivindicar o marxismo. Então isso é Marx com ou sem Lenin? Essa é a questão. Como nós sabemos? Quem foi o real Lenin? Foi ele um herdeiro direto do Marxismo e um proponente da junção entre teoria e prática, ou foi ele um renegado do Marxismo “autêntico” muito mais do que o “renegado Kautsky”? O partido Marxista foi um partido de vanguarda no sentido marxista de não ser “separado da classe trabalhadora”? O “centralismo democrático” de Lenin era democrático ou foi um precursor da ditadura stalinista? Lenin foi responsável pela degeneração e pelas seitas políticas de hoje e seu isolamento das massas? Isso parece confuso, mas na verdade não é. Nós não temos que redescobrir Lenin, sua história foi escrita pela Revolução Bolchevique.

Sem os bolcheviques e seu inquestionável líder Lenin, não teria havido a Revolução Russa, portanto, a esquerda como conhecemos hoje não existiria. A história do século XX seria bem diferente. O marxismo não teria sido mantido vivo no século XX e não permaneceria sendo uma poderosa ideologia de classe nos dias de hoje. Não existiria um renascimento de Marx, simbólico ou real. Mas porque os bolcheviques e Lenin existiram, eles continuam a inspirar as massas na crença de que a revolução não somente é possível, como é necessária. Se nós não derrotarmos os ataques contra Lenin e os bolcheviques, os reacionários, que vão desde centristas que se dizem Marxistas (a nova leva de mencheviques) até reformistas e anarquistas, em nome da democracia, do horizontalismo, da “não tomada do poder”, e assim vai, irão liderar as novas camadas ou revolucionários de volta ao pântano do reformismo, reação e catástrofe climática. Contra todos os anti-Leninistas, nossa tarefa é de Reviver Lenin. Isso significa reestabelecer Lenin como o líder de Marx (e Engels) no século XX.

 

Para Marx, o programa vinha primeiro

 

“Os comunistas são distinguidos dos demais partidos de trabalhadores somente por isso: 1. Nas lutas nacionais dos proletários de diferentes países, eles trazem à tona os interesses em comum do proletariado como um todo, independentemente da nacionalidade; 2. Em todas as fases de desenvolvimento que a luta entre trabalhadores e burguesia deve passar, eles sempre, e em todo o lugar, hão de representar os interesses do movimento como um todo.” Manifesto Comunista

 

O manifesto comunista competiu no movimento de trabalhadores do seu tempo com os programas rivais dos Bakhunistas, Proudhonistas e Blanquistas. Para Marx, o programa era a fusão entre a teoria científica e a prática socialista. A crítica de Marx ao capitalismo revelou suas leis de desenvolvimento e forneceu um guia programático para o desenvolvimento do proletariado como a classe revolucionária. Marx estava quase sozinho como o delineador do programa comunista e do desenvolvimento deste programa na base da luta de classes. No seu 18 de Brumário de Luís Bonaparte, escrito quatro anos depois do Manifesto Comunista, Marx revelou os interesses de classe da burguesia, a qual, mesmo dividida, se unia para manter-se no poder através da concentração de poder no Estado, sob a tutela de um ditador bonapartista. Mas assim como Bonaparte personificou o poder do Estado como “sobre as classes”, ele também representou sua falibilidade, com o Estado tornando-se maduro para ser esmagado e substituído por um estado proletário – a “Ditadura do Proletariado”.

Esse desenvolvimento do programa Marxista, é baseado nas observações de Marx sobre sua teoria natureza de classe do estado como um estado da classe dominante.  Mas como um guia para a prática revolucionário, ele tinha de ser testado na luta de classes com a colaboração ativa dos membros do partido. A menos que o programa Marxista ganhasse o reconhecimento da maioria dos trabalhadores politicamente ativos, não poderia haver revolução.  Seu maior teste veio com a Comuna de Paris, em 1871.

Marx escreveu mais tarde em uma carta a Kugelman, durante a Comuna de Paris:

Se você olhar ao último capítulo do meu “18 de Brumário” você vai perceber que eu escrevi que o próximo esforço da revolução francesa será, sem mais tardar, não transferir a máquina burocrática e militar de uma mão para a outra, mas para quebrá-la, e isso é necessário para toda a Revolução no Continente. E é isso que os nossos heroicos camaradas do Partido em Paris estão buscando. Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício nesses Parisienses! Depois de seis meses de fome e ruína, causadas muito mais por deslealdades internas do que por inimigos externos, eles levantam-se, entre as baionetas prussianas, como se nunca tivesse existido uma guerra entre França e Alemanha e o inimigo não estivesse às portas de Paris. A história não possui um exemplo com tamanha grandeza.” (nossa ênfase)

Marx escreveu 20 anos antes, na conclusão do “18 de Brumário” “Quando o manto imperial cair nos ombros de Luis Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão quebrará de cima da ‘Coluna’ Vendome”. Isso era agora posto em prática pelos comunascomo um primeiro passo para a quebrar o Estado.

Assim como Engels escreveu:

“Desde o princípio, a Comuna foi compelida a reconhecer que a classe trabalhadora, uma vez que tomasse o poder, não poderia lidar com a antiga máquina estatal; isso para não perder a recém conquistada supremacia, essa classe trabalhadora deve, por um lado, livrar-se do antigo aparelho de repressão antes usado contra ela mesma e, por outro lado, proteger-se de seus agentes e oficiais, declarando-os todos, sem exceção,   a qualquer momento.”

Engels descreve esse processo como uma “Destruição do poder estatal e sua substituição por um novo Estado realmente democrático”. (Engels, Introdução de “A guerra civil na França”)

A comuna foi um divisor de águas que testou o programa marxista nos limites da guerra civil e provou que a destruição do Estado e sua substituição por um Estado operário era necessário para completar a Revolução proletária, e para defendê-la da contrarrevolução burguesa. O fracasso em esmagar o Estado, inevitavelmente, significaria, uma derrota. O programa provou sua superioridade na prática contra os Proudhonistas, Blanquistas e Anarquistas frente à classe trabalhadora. Todos eles apresentavam um programa que levaria à derrota. Os proudhonistas apresentavam um programa que não apresentava uma concepção de organização do proletariado como classe que deveria acabar com o Estado e tomar o poder. Os blanquistas, organizados como uma elite conspiradora, separada do proletariado. Os anarquistas pensavam que a exploração vinha do poder estatal e uma vez que o estado fosse destruído, os trabalhadores não precisavam de um para defender o governo da classe trabalhadora. (Engels, Introdução a “A guerra civil na França”)

Marx encontrou duas fraquezas na Comuna no seu fracasso em constituir completamente uma Ditadura do Proletariado. Apesar de ter formado uma milícia popular, ela falhou em avançar sobre Versailles para tirar vantagem do recuo do inimigo. “Eles não queriam iniciar uma guerra civil, como se esse malicioso aborto já não tivesse iniciado uma guerra civil na tentativa de desarmar Paris!” “O comitê Central rendeu-se ao poder.” Para a Comuna, muito cedo. (Carta para Krugelman)

Em “A guerra civil na França”, Marx explica que o Comitê Central (composto por uma maioria Blanquista e por uma minoria Proudhonista) não estava preparada para uma insurreição e tentou comprometer-se com o regime burguês. Faltou um líder marxista e não entendeu a necessidade da tomada do poder. É por isso  que falhou em avançar sobre Versailles.

Lenin, escrevendo sobre a Comuna, chega à mesma conclusão – a ausência de um partido marxista na direção, significou prevalência do reformismo.

Mas dois erros destruíram os frutos da esplêndida vitória. O proletariado parou no meio do caminho: ao invés de colocar-se a “expropriar os expropriadores”, permitiu-se desviar por sonhos de estabelecer uma justiça mais elevada no país unida por uma tarefa nacional comum; Instituições como os bancos, por exemplo, não foram tomadas pelos trabalhadores, e as teorias Proudhonistas sobre uma “troca justa”, etc., ainda prevaleceram entre os socialistas. O segundo erro foi a magnanimidade excessiva por parte do proletariado: em vez de destruir seus inimigos, procurou exercer influência moral sobre eles; Subestimou o significado das operações militares diretas na guerra civil e, em vez de lançar uma ofensiva resoluta contra Versalhes que teria coroado sua vitória em Paris, demorou-se e deu ao governo de Versalhes tempo para reunir as forças das trevas e preparar-se para a semana de derramamento de sangue de Maio. “[Nossa ênfase]

Mesmo na derrota, a Comuna provou a fundamental exatidão do programa marxista; Apenas a classe trabalhadora organizada por uma vanguarda marxista era capaz de esmagar o estado e de introduzir a Ditadura do Proletariado (o “Estado democrático realmente novo”).

20 anos depois, em sua Introdução à Guerra Civil na França, referindo-se à tendência do “oportunismo” na II Internacional, Engels concluiu:

“Mais tarde, o filisteu social-democrata foi mais uma vez tomado de um terror saudável perante as palavras: Ditadura do proletariado. Meu bom cavalheiro, você quer saber como é essa ditadura? Olhe para a Comuna de Paris. Esta foi a Ditadura do proletariado”. [Nossa ênfase]

Embora o programa marxista tenha sido comprovado corretamente pela Comuna, a Associação Internacional dos Trabalhadores (a “Primeira Internacional”) não sobreviveu por muito tempo. No refluxo da luta de classes que se seguiu, surgiram duas tendências marxistas, baseando-se na Comuna de Paris, uma para avançar para a revolução e outra para se retirar para o reformismo. Na Segunda Internacional, a ala revolucionária foi associada a Lenin, Trotsky e Luxemburgo. A ala reformista foi associada com Bernstein e Kautsky. Ambos delinearam suas credenciais marxistas de volta à Comuna e ao Manifesto comunista revisado. (Karl Korsch, Introdução à Crítica do Programa de Gotha)

 

Lenin e Trotsky: Kautsky e a Comuna de Paris

Não é por acaso que Lenin e Trotsky voltaram para a Comuna de Paris e Marx e Engels para orientação durante e depois da tomada bolchevique do poder. Lenin fez isso para chegar às raízes do “centrismo” de Kautsky e traição da revolução na Rússia e na Alemanha. Trotsky fez isso durante o auge da guerra civil em resposta ao ataque de Kautsky ao “Terror Vermelho”. Ambos traçaram a última divisão no movimento marxista sobre a questão da “autoridade” do proletariado para impor uma Ditadura do Proletariado de volta à Comuna de Paris.

Engels, escrevendo logo após a derrota da Comuna em 1873,faz uma provocação sobre o receio que reteve os proto-mencheviques da tomada militar do poder:

“Os cavalheiros já viram uma revolução? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que existe, é um ato pelo qual uma parte da população impõe sua vontade sobre a outra parte da população por meio de rifles, baionetas e canhões, os quais são meios altamente autoritários. E o partido vitorioso deve manter seu governo por meio do terror que inspiram nos reacionários. A Comuna de Paris teria durado mais de um dia se não tivesse usado a autoridade do povo armado contra a burguesia? Não podemos, pelo contrário, culpá-los por terem usado muito pouco dessa autoridade?”

Tanto Lenin quanto Trotsky seguem a visão de Marx e Engels de que os líderes dos Comunas fizeram “muito pouco uso dessa autoridade” e “pararam no meio do caminho” (frase de Lenin) porque faltou uma liderança marxista e ainda eram influenciados pelo socialismo pequeno-burguês (o reformismo de Proudhon, o aventureirismo de Blanqui) e a hostilidade pequeno-burguesa de Bakunin à Ditadura Proletária. Eles compartilhavam a visão de que as condições não estavam maduras para a revolução, mas que, uma vez que os trabalhadores armados foram forçados a defender Paris dos exércitos prussianos e franceses, era necessário prosseguir a guerra civil até o fim. Eles concordaram com Marx e Engels que o fracasso em fazer isso foi devido à ausência de maioria marxista no Comitê Central da Guarda Nacional.

Na elaboração deEstado e a Revolução, Lenin mostra a cisão de Kautsky do programa marxista voltando-se à Comuna. Enquanto Marx e Engels modificaram o Manifesto para incorporar o “esmagamento do Estado” e a “Ditadura do Proletariado”, Kautsky se opõe à “destruição do poder do Estado” e, em vez disso, fala de “mudar o equilíbrio das forças dentro do poder do Estado”.

Lenin exclama:

“Este é um completo naufrágio do marxismo! Todas as lições e ensinamentos de Marx e Engels de 1852-1891 foram esquecidas e distorcidas.” A máquina militar-burocrática do estado deve ser esmagada “, ensinaram Marx e Engels. Nem uma palavra sobre isso. A utopia filistina da luta por reformas é substituída pela ditadura do proletariado “. [Lênin, Marxismo no Estado: material preparatório para o livro O Estado e a Revolução.]

Lenin continua a salientar que o antigo Estado burguês deve ser substituído por um novo estado proletário para que o proletariado como classe possa “suprimir a burguesia e esmagar sua resistência”. Enquanto a Comuna imediatamente assumiu a forma de um estado proletário ao substituir o exército permanente por trabalhadores armados, não poderia completar sua tarefa de democracia operária (em que todos os funcionários eram eletivos, responsáveis e revogáveis) porque não conseguiu esmagar a resistência da burguesia. O Comitê Central temia impor o “terror” de sua autoridade de classe ao inimigo de classe. Procurou em vez disso uma “conciliação”. Como Trotsky encontrou nos escritos de Kautsky sobre a Comuna, ele concordou com o Comitê Central!

Trotsky, a bordo de seu trem militar em 1921, respondeu ao ataque de Kautsky contra o Terror Vermelho [o Exército Vermelho derrubando a contra-revolução sem pena], revelou que o medo de Kautsky da “autoridade” da ditadura proletária na Rússia durante a Guerra tinha raiz no seu medo do “terror vermelho” da Guerra Civil na França. Kautsky poderia facilmente concordar com Marx que em 1871 a revolução era prematura porque as condições não estavam maduras e os trabalhadores despreparados. No entanto, quando no enfrentamento de uma guerra civil real, em vez de seguir Marx e Engels na batalha para derrotar a liderança não-marxista e impor um forte comando militar central, Kautsky teria ficado ao lado dos “conciliadores” que esperavam fazer um acordo com Thiers, considerando uma eleição para tornar a Comuna “legal”!

Como argumenta Trotsky, Kautsky colocou a “democracia” da Comuna à frente da campanha militar do Comitê Central para derrotar a Assembléia Nacional:

“Ao apoiar a democracia da Comuna e, ao mesmo tempo, acusando-a de uma nota insuficientemente decisiva em sua atitude em relação a Versalhes, Kautsky não entendeu que as eleições da Comuna, realizadas com a ambígua ajuda dos prefeitos e deputados “legais”, refletiu a esperança de um acordo pacífico com Versalhes. Este é o ponto principal. Os líderes estavam ansiosos por uma conciliação, não por uma luta. As massas ainda não tinham superado suas ilusões.”

Nem Kautsky, cuja confusão pacifista não fez nada para ajudar a esmagar essas ilusões. Trotsky “entende”Kautsky:

“Quando se considerava a execução de generais contrarrevolucionários como um “crime” indelével, não se poderia aumentar o vigor na busca de tropas que estavam sob a direção de generais contrarrevolucionários”. [A Comuna de Paris e Rússia Soviética]

Em outras palavras, Kautsky já era um “centrista”. Ele citou Marx em teoria, mas depois delineou conclusões práticas reformistas. Ele colocou a democracia burguesa à frente da Ditadura do Proletariado porque os “trabalhadores não estavam preparados”. Seu centrismo não teria sido contestado durante décadas por Engels e outros na 2ª Internacional, embora Engels tenha selecionado Bebel em seu lugar como executor literário de Marx e Engels, após a morte do último.

 

O Programa de Gotha abandona o Programa Marxista

 

Quatro anos após a derrota dos heroicos Comunas que colocaram o programa marxista em seu primeiro teste em uma situação revolucionária, Marx foi forçado a defender o Manifesto Comunista em seu Crítica do Programa de Gotha, em 1875. Depois de dispensar os Proudhonistas e separar-se de Bakunin, em 1873, Marx estava agora enfrentando uma cisão com os “marxistas” alemães, os Eisenarchers, que no congresso de unidade com os Lassalleanos se tornam mais seguidores de Lassalle do que de Marx. Marx argumentou que o resultante Partido dos Trabalhadores Unidos da Alemanha abandonou o programa “comunista” para o de Lassalle, que ignorou as relações sociais, a mais-valia, o internacionalismo e a natureza de classe do estado e “retornou” a uma visão reformista do Estado alemão, redistribuindo “ajuda” aos trabalhadores com base em “direitos iguais”.Era um “programa extremamente desorganizado, confuso, fragmentado, ilógico e desrespeitoso”, e como os inimigos do proletariado o perceberam como tal, Marx e Engels afirmaram terem sido forçados a dissociar-se disso. (Citado em Korsch, Introdução à Crítica do Programa Gotha)

Marx escreve em Crítica:

“Desde a morte de Lassalle, afirmou-se no nosso grupo a compreensão científica de que os salários não são o que parecem ser – ou seja, o valor ou o preço do trabalho -, mas apenas uma forma mascarada do valor, ou preço, da força de trabalho… E depois que este entendimento ganhou mais e mais terreno em nosso partido, alguns retornam ao dogma de Lassalle, embora tenham de saber que Lassalle não sabia o que eram os salários, mas, seguindo os economistas burgueses, tomou a aparência como essência da questão “. [Nossa ênfase]

Marx revela aqui que, contra sua própria ciência dialética, a teoria de Lassalle é uma ideologia pré-marxista voltada para Malthus e Ricardo. Os salários são o preço do trabalho (não a força de trabalho), de modo que a base da exploração é o pagamento insuficiente do valor cambial do trabalho.Esta é a “aparência”, uma vez que a “essência” das relações sociais de produção capitalistas “aparecem” (são invertidas) como relações de troca.Se a exploração ocorre pagando menos ao trabalho do que seu valor, isso pode ser corrigido através de “troca de equalização”, através de auxílio estatal.No entanto, Marx já provou cientificamente que isso não é assim em O Capital, e mais popularmente em Salário, Preço e Lucro. A exploração ocorre quando a força de trabalho mercantilizada é comprada pelo seu valor e, no entanto, porque é a única mercadoria com um valor de uso que pode produzir mais do que seu próprio valor, o capitalista se apropria de uma “mais-valia”.Portanto, o Estado não pode se tornar a base de reformas que garantam o “produto não diminuído do trabalho” por meio de uma “distribuição justa” de renda baseada em um ideal de “igualdade de direitos”. É necessário derrubar o estado e expropriar os expropriadores!

Assim, Marx deixa claro que o Programa Gotha é um retrocesso de seu marxismo para a utopia reformista pequeno-burguesa de um “socialismo vulgar”:

“Qualquer distribuição, qualquer que seja o meio de consumo, é apenas uma conseqüência da distribuição das próprias condições de produção. A última distribuição, no entanto, é uma característica do próprio modo de produção.O modo de produção capitalista, por exemplo, baseia-se no fato de que as condições materiais de produção estão em mãos de não-trabalhadores sob a forma de propriedade em capital e terra, enquanto as massas são apenas proprietárias da condição pessoal de produção, da força de trabalho.Se os elementos de produção forem assim distribuídos, então a distribuição atual dos meios de consumo resulta automaticamente. Se as condições materiais de produção são a propriedade cooperativa dos próprios trabalhadores, então também resulta uma distribuição dos meios de consumo diferentes do presente. O socialismo vulgar (e, por sua vez, uma seção dos democratas) tomou dos economistas burgueses a consideração e o tratamento da distribuição como independente do modo de produção e, portanto, a apresentação do socialismo como sendo principalmente a distribuição. Depois que a relação real já ficou clara, por que retroceder?”[Nossa ênfase]

Lenin reconheceu que Crítica, de Marx, era uma análise poderosa que desenvolveu o programa do Manifesto comunista na transição do capitalismo para o comunismo. Não só criticou o Lassalleanismo como um socialismo vulgar ligado ao Estado capitalista alemão, como também mostrou como o estado capitalista deve ser derrubado e dar lugar a um período de transição para o socialismo (a Ditadura do Proletariado) que cria as condições para o comunismo e a gradual destruição do estado.

“Toda a teoria de Marx é a aplicação da teoria do desenvolvimento – em sua forma mais consistente, completa, pensada e enérgica – ao capitalismo moderno. Naturalmente, Marx enfrentou o problema de aplicar esta teoria tanto ao colapso do capitalismo, quanto ao futuro desenvolvimento do comunismo… é possível determinar mais precisamente como a democracia muda na transição … “(O Estado e a Revolução, Capítulo 5)

Assim, Marx em sua Crítica, destrói toda a possibilidade de uma transição pacífica da democracia burguesa para a proletária no momento em que a social-democracia alemã vulgariza oportunamente o marxismo em um programa utopista reformista. Primeiro, Marx mostra como a democracia burguesa é uma formalidade para a grande maioria (a classe trabalhadora), porque ela só pode ser uma ditadura burguesa da minoria sobre a maioria. Em segundo lugar, para provocar a democracia proletária, a Ditadura do Proletariado, é necessário esmagar a ditadura burguesa.

“Somente na sociedade comunista, quando a resistência dos capitalistas for completamente esmagada, quando os capitalistas desapareceram, quando não houver classes sociais (ou seja, quando não houver distinção entre os membros da sociedade em relação às suas relações com os meios sociais de produção ), somente então “o estado… deixa de existir” e “torna-se possível falar de liberdade”. Só então uma democracia verdadeiramente completa será possível e será concretizada… Só então a democracia começará a desaparecer.” (ibid)

Korsch explica as razões mais amplas pelas quais Marx e Engels tomaram sua crítica tão a sério:

“Em meados da década de 1870, Marx e Engels acharam que era muito mais possível, do que haviam pensado dez anos antes, que o movimento socialista e comunista nos países avançados voltasse à “velha audácia” do Manifesto 1847-8, apresentando uma “declaração de princípios”. De qualquer forma, eles pensavam que o movimento havia se desenvolvido de tal forma que qualquer retrocesso no que foi dito em 1864, pareceria um crime imperdoável contra o futuro do movimento operário. Assim, o próprio Marx diz na nota que acompanha a Crítica do Programa de Gotha: não havia necessidade de fazer uma “declaração de princípios” quando as condições não permitissem, mas como as condições haviam progredido tanto desde 1864, era absolutamente inadmissível “desmoralizar” o partido com um programa superficial e sem princípios.

Isso ilustra algumas das preocupações de Marx ao escrever a Crítica do Programa de Gotha. Ele exigiu da “Declaração de Princípios” do partido democrático socialista mais avançado, no mínimo, o mesmo nível de princípios e demandas concretas que ele mesmopôde inserir em outra declaração de princípios, dez anos antes. Isso foi elaborado em circunstâncias muito menos favoráveis e foi projetado para o programa comum das várias tendências socialistas, semi-socialistas e quarter-socialistas na Europa e América. Como o Programa de Gotha não conseguiu cumprir esta condição mínima, Marx considera que caiu abaixo do nível já alcançado pelo movimento. Por isso, mesmo que parecesse se adequar ao estado do Partido na Alemanha, foi a barreira a prejudicar o futuro desenvolvimento histórico do movimento “.

No entanto, nem a crítica implacável de Marx nem o desenvolvimento da teoria marxista da transição para o comunismo foram entendidos. Foi ignorado e o Programa Gotha emergiu praticamente inalterado em uma onda crescente de oportunismo.O programa marxista “vulgar” que confundiu as relações de trocacom as relações de produção e levou à traição de 1914, foi adotado. “Por que retroceder?” , perguntou Marx. Engels e Lenin forneceram a explicação mais tarde. O surgimento do imperialismo alemão agora poderia dar ao luxo de criar uma aristocracia de trabalhadores comprada pelo aumento do padrão de vida pago pelos super-lucros coloniais.A social-democracia alemã estava se adaptando à formação de uma aristocracia trabalhista que votou nas reformas estatais pagas pela super-exploração de trabalhadores e camponeses coloniais. Se o Programa Gotha virou as costas para o Manifesto Comunista e fundou a socialdemocracia alemã como “socialismo vulgar” pré-marxista, o Programa Erfurt, de 1891,era melhor?

 

Engels e Lênin criticam o programa Centrista de Erfurt, de 1891

O programa de Erfurt em 1891 não rompe completamente com o programa Gotha em seus aspectos centrais. É um programa centrista na melhor das hipóteses. A carta de Engels “Sobre a Crítica do Programa Social Democrata de 1891 (Programa de Erfurt)” é uma continuação da crítica de Marx e Engels ao Programa de Gotha. Engels estava claramente preparado para continuar a luta pelo programa comunista contra a emergente democracia social alemã emergente e seu principal teórico Karl Kautsky.Ele publicou pela primeira vez a Crítica de Marx do Programa de Gotha junto de sua própria introdução à Guerra Civil na França, de Marx, em 1891, para defender publicamente as lições do desenvolvimento programático desde 1847, mas  sua Crítica ao programa de Erfurt não foi publicado por Kautsky até 1901!As críticas embasadas de Engels, como as de Marx em Gotha, foram ignoradas. O fosso entre o Manifesto Comunista e o SPD reformista alemão, atrás das frases marxistas vazias, estava crescendo.

A crítica principal de Engels é ao “oportunismo” das demandas políticas: “Essas são tentativas de se convencerem e convencerem o partido que a” sociedade atual se desenvolve em direção ao socialismo “sem se perguntar se não é necessário superar a antiga ordem social ou se não terá que explodir esta antiga couraça pela força, como um caranguejo quebra sua concha, e também se na Alemanha, além disso, não terá que destruir os grilhões do regime ainda semi-absolutista e, além disso, a indescritível e confusa ordem política… A longo prazo, tal política só pode levar o Partido a perder-se. Eles colocam as questões políticas gerais e abstratas em primeiro plano, escondendo assim as questões concretas imediatas, que no momento dos primeiros grandes eventos, na primeira crise política, se apresentam automaticamente. O que pode resultar disso, além de, no momento decisivo, o partido de repente se mostrar impotente e a incerteza e a discórdia sobre as questões mais decisivas reinarem nele porque essas questões nunca foram discutidas?…Este esquecimento do macro, as considerações principais serem para os interesses momentâneos do dia, essa luta e luta pelo sucesso do momento, independentemente das consequências posteriores, esse sacrifício do futuro do movimento por seu presente, pode ser “honestamente” o que queriam com ele, mas é e continua sendo oportunista, e o oportunismo “honesto” é talvez o mais perigoso de todos…[Nossa ênfase]

Kautsky evade a crítica. Ele afirma que a crítica de Engels foi ao primeiro rascunho e não ao projeto que foi adotado. No entanto, uma comparação dos dois mostra que a versão de Kautsky não reflete a crítica de Engels às demandas políticas.O livro de Kautsky, Luta de Classes, um comentário ampliado sobre o programa de Erfurt, foi publicado em 1892. Torna-se a apresentação popular do Programa de Erfurt. As críticas de Engels estão no livro de Kautsky?

O livro “Luta de classes” de Kautsky expõe a “economia” marxista “ortodoxa”, da mais-valia às crises de superprodução que criam as condições para a transição para o socialismo.Mas não há dialética, apenas um esquema evolutivo do desenvolvimento capitalista. O lado proletário da luta de classes é “objetivo” na medida em que o agente subjetivo do proletariado é suprimido e substituído pela intelectualidade socialista pequeno-burguesa.O “desenvolvimento” capitalista é expressado por intelectuais marxistas vulgares que ensinam os trabalhadores no seu nível de desenvolvimento. A transição para o socialismo é gerida por uma burocracia socialista que reforma a transição do Estado capitalista para o Estado socialista.

“Do reconhecimento deste fato nasce o objetivo que o Partido Socialista estabeleceu antes: chamar a classe trabalhadora para conquistar o poder político até o fim que, com seu auxílio, podem mudar o Estado em um processo de auto-suficiência comum e cooperativa “. [Nossa ênfase]

Então, para Kautsky, “conquistar o poder político” significa” mudar o estado “. Como? Não há insurreição armada ou “esmagamento do estado”, mas sim uma transição relativamente pacífica através da tomada gradual do estado ou, como Marx, colocou a “transferência da máquina militar burocrática de uma mão para outra” (18 de Brumário).Portanto, as demandas políticas de Erfurt, tal como apresentadas por Kautsky para a transição para o socialismo, ficam aquém do Manifesto comunista e do desenvolvimento crítico do programa no período de 1852 a 1875, que abrange da Comuna a Gotha.

O reconhecimento de Lenin de que o programa de Erfurt era centrista não veio até depois da grande traição de 1914. A partir desse momento, voltou a procurar as raízes materiais da degeneração da social-democracia alemã. O Estado e a Revolução e o Renegado Kautsky foram o resultado. Neste processo, Lenin revisita a crítica suprimida de Engel a Erfurt e, no processo, descobre que Kautsky, o líder alemão que baseia sua autoridade em Erfurt, rejeita todos os desenvolvimentos decisivos no programa marxista desde 1847. Referindo-se a Kautsky, Lenin exclama em notas marginais na sua redação de Estado e Revolução: “Isto é como um completo naufrágio do marxismo… um passo atrás de 1852-91 a 1847”! [‘Marxismo sobre o Estado: material preparatório para o livro O Estado e a Revolução’. Não on-line].

Por que Lênin foi levado pelo centrismo de Kautsky por tanto tempo? A resposta curta é, primeiro, o centrismo em si e, segundo, o tzarismo. É da natureza do centrismo disfarçar sua traição em frases vazias. Enquanto Engels repreendeu a social-democracia alemã como “oportunista”, ele pensou que isso era uma aberração que provavelmente resultaria da autocensura para evitar desencadear a lei anti-socialista de Bismarck. No entanto, o oportunismo centrista não está exposto como um retiro contra-revolucionário do marxismo até que seja testado em condições revolucionárias e seja exposto por suas ações traiçoeiras. Assim, as frases revolucionárias cuidadosamente qualificadas por eufemismos vagas como “conquistar o poder político” no programa de Kautsky não foram colocadas à prova da prática revolucionária na Alemanha até 1914.

Em segundo lugar, os desenvolvimentos no SPD não eram fundamentais para a luta de classes que se desenvolvia na Rússia czarista. O SPD era um partido legal com milhões de membros, um grande aparelho oficial e muitos deputados eleitos no Reichstag. Formalmente, estava em pé no programa de Erfurt e na “conquista do poder político”. No entanto, na Rússia, a tarefa urgente para os marxistas foi o esmagamento do Estado czarista trazendo consigo um conjunto de desafios ao programa e à forma do partido revolucionário necessário para superar esses desafios. Os debates necessários sobre a teoria e as táticas tornaram-se o foco das disputas faccionais e das maquinações no RSDWP. Isso é evidente no fato de que os líderes do RSDWP, enquanto exilados na Europa, disputavam disputas em seus próprios artigos e congressos quase que independentemente dos dois partidos internacionais em seus países anfitriões.

Atualmente, há um debate sobre se o RSDWP era um partido marxista no molde do SPD de Kautsky, o “partido mãe” na 2ª Internacional, ou um grupo de “novo tipo” como resultado de Lenin ganhar uma maioria em 1902. O SPD era um partido de “massa”, mas também era um grupo “amplo” de marxistas, centrists e reformistas onde a fração marxista era marginalizada pelos centristas e não conseguia defender o programa marxista da ditadura do proletariado contra os oportunistas. Esta questão foi ignorada, uma vez que os trabalhadores estavam experimentando padrões de vida crescentes através de reformas parlamentares e o programa foi diluído pela ala reformista de Bernstein sob a capa da ala centrista de Kautsky. Então, enquanto a ala reformista foi criticada pelo centrista Kautsky, ao mesmo tempo, ele abre a porta para a retirada da ideia de “esmagar o estado”.

Lenin pergunta: “Como, então, Kautsky prosseguiu em sua mais detalhada refutação do Bernsteinismo? Nesse ponto, ele se absteve de analisar a total distorção do marxismo para o oportunismo.” Ele citou a passagem citada acima do prefácio de Engels à Guerra Civil, de Marx, e disse que, de acordo com Marx, a classe trabalhadora não pode simplesmente assumir a maquinaria estatal pré-fabricada, mas, em geral, pode demorar e isso foi tudo. Kautsky não disse uma palavra sobre o fato de Bernstein ter atribuído a Marx o oposto da idéia real de Marx, que, desde 1852, Marx havia formulado a tarefa da revolução proletária como “esmagar” a máquina de estado “. (Capítulo de Lenin 6, Estado e Revolução)

Na Rússia, a “tarefa” do RSDWP não era a classe trabalhadora “conquistando o poder político” da burguesia, mas a de liderar todas as massas oprimidas no derrube do Tsar. O RSDWP começou como partido “amplo” como o SPD, mas sua fração marxista (bolcheviques) de 1902 dominou os oportunistas (mencheviques) e os conciliadores (Centristas) em sua defesa militante e desenvolvimento do programa marxista. O confronto entre as frações marxistas e oportunistas surgiu na Rússia antes de 1905, uma vez que as diferenças teóricas na estratégia e na tática tiveram consequências práticas de vida ou morte no combate à autocracia czarista.

 

Lenin e o “Que fazer?”

Ao contrário do SPD que poderia votar seus representantes no Parlamento, o partido russo enfrentou uma autocracia zarista. A tarefa imediata era a da “liberdade política”, isto é, a revolução burguesa, na qual o proletariado seria a classe líder. A concepção de Lenin sobre o partido não era como uma elite profissional separada dos membros de massa, mas de intelectuais e trabalhadores que levaram o programa marxista aos trabalhadores que já se organizavam contra o regime czarista. As diferenças no RSDWP não surgiram sobre o programa para derrubar o Tsar, mas sobre o papel do proletariado nesta revolução. Para Lenin e a fração bolchevique, o proletariado deve ser independente da burguesia e liderar todas as classes oprimidas. Para os mencheviques, como os centristas do SPD, incluindo Kautsky, o proletariado não era capaz de tomar o lugar da burguesia para liderar sozinho a revolução burguesa.

Assim, entre 1902 e 1917, a principal luta dentro do RSDWP foi entre aqueles que discutiram se essa classe trabalhadora estava pronta ou não para substituir a burguesia em derrubar o czar. Os bolcheviques achavam que ela estava pronta, os mencheviques pensavam que os trabalhadores deveriam “concialiar-se” com a burguesia.

Sobre a questão da natureza do partido de vanguarda, isso é determinado pelo programa marxista em que o proletariado é a única classe revolucionária capaz de unir a teoria e a prática marxistas como a agentes da revolução. Condições nacionais específicas são o funcionamento concreto imediato desta dialética de classe histórica e internacional. O regime czarista oprimia não apenas trabalhadores, mas também pobres e camponeses. Também oprimiu elementos da burguesia. Lenin argumenta que a classe trabalhadora liderará a revolução, arrastando consigo os pobres e camponeses. Os camponeses ricos estão se tornando capitalistas e eles e a burguesia fraca não podem liderar uma revolução contra o czar. Assim, o proletariado será “hegemônico” em liderar todas as classes oprimidas. Para que isso aconteça, o partido marxista deve incluir a vanguarda dos trabalhadores, que têm uma “consciência socialista”, e não aqueles que tem uma consciência somente de “sindicalistas”.

Em “Que fazer?”, Lenin diz que esta “consciência socialista” é trazida de fora para os trabalhadores. Em vez de admitir que o partido marxista é separado dos trabalhadores, a chamada “ditadura do Partido” criticada por Luxemburgo e Trotsky, é o contrário. Tanto o movimento operário quanto os intelectuais marxistas devem “convergir” e “fundir” para que a revolução aconteça.

É por isso que os bolcheviques se separaram organizativamente dos mencheviques em 1912, enquanto os marxistas, no SDP, não conseguiram construir uma fração do tipo bolchevique até o KDP (Espartaquistas), em 1919. O partido que lideraria o derrube do Tsar e organizaria a insurreição socialista tornou-se um partido marxista “de massa” no qual os membros concordaram com o programa bolchevique para a Rússia. Tragicamente, na Alemanha, os espartaquistas fundaram o KDP muito tarde em 1919, mas foram “esmagados” pelos reformistas do SDP e pelo USDP de Kautsky que se juntaram a um popular governo burguês de frente na “transição pacífica para o socialismo” que não era nem pacífico nem uma transição.

Então, em 1902, Lenin já está fornecendo respostas às questões colocadas acima: o RSDWP ainda não é um partido de vanguarda. Seus líderes e membros são marxistas, mas há diferenças em como derrubar o Tsar. Depois de 1905, o partido se fragmenta em numerosas frações fracas, mas, em 1909, há a diferenciação entre bolcheviques e mencheviques e suas diferenças se aprofundam em estratégias e táticas. Uma divisão se aproxima, e chegaria o tempo em que a classe trabalhadora conduziria a derrubada do czar ou faria uma coalizão política com a burguesia. Lenin se mobiliza para reorganizar o RSDWP em um programa marxista de uma revolução liderada pelos trabalhadores, contra mencheviques e outros que querem uma coalizão de classe cruzada. O programa vem primeiro e os bolcheviques e os mencheviques se dividem em 1912.

A partir deste ponto, ambas frações organizam e se encontram separadamente apresentando uma escolha clara para os trabalhadores russos. Eles entram no período de lutas crescentes e provam às massas que o programa é correto e qual a classe liderará a revolução contra o Tsar. Isso acontecerá primeiro em 1914, quando a fração bolchevique se tornar o núcleo da esquerda Zimmerwald e um novo embrião internacional. Chegará ao teste final quando os bolcheviques convencerem os trabalhadores russos de fazer uma revolução e os mencheviques acompanham a pequena burguesia camponesa e a burguesia para se oporem à revolução. Este é o centralismo democrático na prática e foi testado na prática e, na sua ausência, com resultados positivos e negativos nas revoluções russa e alemã.

Alguns neo-kautskistas hoje que desejam recrutar Lenin para o partido “amplo” não conseguem compreender que, enquanto os bolcheviques e os mencheviques não formaram partidos separados em 1912, eles se separaram como frações sobre um princípio fundamental do programa marxista. O RSDWP que resultou continha duas partes, exceto em nome, os bolcheviques em pé sobre o princípio da hegemonia do trabalhador, os mencheviques sobre a “conciliação de classe” (o que se chama hoje a frente popular com a burguesia) na revolução russa. Longe de ser um partido “amplo” que tolerava todas as diferenças políticas, uma divisão sobre esta questão era uma questão de vida e morte. A incapacidade de formar os bolcheviques como uma organização política separada teria destruído sua capacidade de implementar o centralismo democrático e impedido que ele rapidamente desenvolvesse seu programa e ganhasse o apoio das massas nos soviéticos para uma revolução dos trabalhadores.

Mesmo assim, na facção bolchevique em abril de 1917, todas as lideranças além de Lênin estavam se conciliando com o Governo Provisório – ou seja, propondo uma frente popular com a burguesia! A situação foi resgatada por Lênin porque ele poderia apelar para a base de massa dos bolcheviques conquistados para a facção / partido desde 1912 em um programa marxista e convencê-los da estratégia correta e táticas. Caso o RSDWP não tivesse se dividido, teria ficado como um grupo “amplo” de marxistas e colaboracionistas de classe, como o SPD de Kautsky. O resultado teria sido uma derrota para a revolução russa nas mãos de Kerensky e Kornilov! As revoluções russa e alemã são o testemunho final desse fato.

 

Bolchevismo e as Revoluções Russa e Alemã

Em abril de 1917, Lenin provou que o RSDWP era duas frações há muito tempo apenas em nome e, na realidade, dois partidos diferentes. Além disso, ele provou que a “fração” bolchevique não estava livre de possíveis menheviques na liderança, prontos para “conciliar” com a burguesia. Era necessário ir ao conjunto dos membros do RSDWP. Ele leu suas teses de abril aos bolcheviques e depois a ambos os bolcheviques e os mencheviques juntos. Lenin estava fora da Liderança do Partido e se dirigiu diretamente à celula de Petrogrado do partido. Ele os conquistou para a insurreição socialista. (Trotsky, História da Revolução Russa, (HRR) Cap. 15).

Mais uma vez, em outubro, Lenin está em uma minoria de um no Comitê Central. Ele exige uma insurreição e o Comitê Central queima sua carta. Acusando o Comitê Central de “Fabianismo”, ele vai para o soviet de Petrogrado e à Conferência Regional dos sovietes do Norte e, falando por sua própria autoridade, exige “um movimento imediato de Petrogrado”. (Trotsky, HRR, Cap. 24). Então, quando o Comitê Central finalmente concorda com a insurreição, Zinoviev e Kamenev divulgam esses planos no Pravda, o jornal menchevique. Lênin pede sua expulsão, mas é derrotado no Comitê Central. Foi assim que os bolcheviques, sob a liderança de Lênin, e organizados como um partido de massa de fato, conseguiram não só sobreviver a uma crise revolucionária, mas conquistar a liderança dos trabalhadores e camponeses, derrotar a contrarrevolução e fazer a primeira revolução socialista em história. Não é assim na Alemanha.

A bancarrota teórica da 2ª Internacional não foi colocada à prova e exposta como um “cadáver fedorento” (Luxemburgo citado em Lenin) até o 4 de agosto de 1914. Os centristas em torno de Kautsky e os revolucionários da esquerda de Zimmerwald em torno de Luxemburgo e Liebknecht dividiram-se para formar o SDP unido (USPD), mas a fração Espartaquista, esquerda na USPD, não conseguiu se separar para fundar um partido independente do tipo bolchevique até dezembro de 1918. Somente em 1917 os caminhos das revoluções russa e alemã convergem em uma liderança marxista que entendeu que as revoluções devem se unir para ter sucesso. Mas a “velha guarda” alemã em torno de Luxemburgo não tinha experiência na organização de uma base de massa. A dependência da “espontaneidade” contra o “centralismo” de Lênin significava que, quando os soldados e os marinheiros se levantaram contra o regime Junker, não havia um partido centralista democrático de tipo bolchevique na sua cabeça para “esmagar o estado”. Como Lênin, Luxemburgo, enfrentando uma crise revolucionária na Alemanha, voltou para Marx e Engel para tirar as lições sobre o “esmagamento do estado e para refundar o programa comunista”:

“… Até o colapso de 4 de agosto de 1914, a social-democracia alemã defendeu o programa de Erfurt e, por meio desse programa, os chamados objetivos mínimos imediatos foram colocados em primeiro plano, enquanto o socialismo não era mais do que uma distante estrela orientadora. Muito mais importante, no entanto, que o que está escrito em um programa é a forma como esse programa é interpretado em ação. Deste ponto de vista, deve ser atribuída grande importância a um dos documentos históricos do movimento de trabalhadores alemão: o prefácio escrito por Fredrick Engels para a republicação de 1895 de “Luta de Classe na França”, de Marx. Não é apenas por motivos históricos que eu agora reabri a questão. A questão é de extrema realidade. Tornou-se hoje nosso dever urgente substituir o nosso programa pelo alicerce estabelecida por Marx e Engels em 1848. Em vista das mudanças efetuadas desde então pelo processo histórico de desenvolvimento, incumbe-nos empreender uma revisão deliberada dos pontos de vista que guiaram a social-democracia alemã até o colapso de 4 de agosto.É nesta revisão que estamos oficialmente envolvidos hoje …. “(No Programa Spartacus [nossa ênfase]

Muito tarde! O atraso dos marxistas revolucionários na divisão da USPD foi fatal. Isso significava que eles não tinham tempo para construir uma vanguarda marxista e ganhar uma base de massa antes que a crise revolucionária tenha chegado à tona. Quando os espartaquistas fundaram o KPD em 1919, o SPD e o USDP estavam colaborando em um governo burguês liderado pelo líder do SPD, Ebert. A revolução, seus principais líderes social-democratas foram assassinados e a milícia dos trabalhadores armados “esmagada” pelos Freikorps. Então, o problema do partido não é que Lênin abandonou o partido “amplo” para um partido elitista, mas que, sem um programa revolucionário testado na luta, o partido de vanguarda é sugado de volta ao oportunismo e à conciliação com a burguesia. O problema não é, portanto, o bolchevique / leninismo histórico, mas a ausência dele. A Rússia e a Alemanha são os casos de teste. Os bolcheviques ganharam as massas na Rússia porque se separaram dos mencheviques, mas na Alemanha onde eles não conseguiram se separar dos kautskistas até muito tarde, a revolução foi derrotada.

Tanto para Marx quanto para Lenin, o partido de vanguarda é o partido dos trabalhadores marxistas, não o partido dos trabalhadores não marxistas. Isso foi verdade mesmo quando a vanguarda não era mais do que uma; Marx em Gotha, Lênin sobre as teses de abril. Mas, ao mesmo tempo, a vanguarda marxista é obrigada a lutar para conquistar os não marxistas à vanguarda. Mas, para fazer isso, os contrarrevolucionários, oportunistas, centristas, mencheviques etc. devem ser derrotados. Isso é o que prova a revolução russa. Como Marx confrontando o retiro no Lassalleanismo em Gotha, Lenin também se encontra sozinho em abril de 1917 carregando a bandeira da vanguarda marxista.

À medida em que a crise de guerra e a revolução se desenrolavam, Lenin tirou mais conclusões. Depois de 1914 ele escreve uma série de artigos e panfletos e acusa Kautsky de renunciar ao Manifesto de Basileia de 1912, na guerra. (veja Prefácio a O Renegado Kautsky). Em  “Imperialismo…” escrito em 1915, Lenin mostra que o oportunismo de Kautsky explica sua teoria do “ultra-imperialismo”. Durante os dias de julho de 1917, quando ele estava escondido, escreve o Estado e a Revolução. Ele agora mostra que Kautsky abandonou a teoria de “esmagar o estado” em 1871. Ele “naufraga o marxismo” e retrocede a 1847.

Então, em 1918, a condenação de Kautsky à revolução bolchevique no seu panfleto “A Ditadura do Proletariado” provoca o brilhante “Revolução Proletária e o Renegado Kautsky”, de Lenin, no qual ele resume Kautsky na frase “Como Kautsky transformou Marx em um liberal Comum” ao reduzir a “Ditadura do Proletariado” na Comuna de Paris a “democracia burguesa” (ou seja, pura), e a maioria eleitoral! O prego final no caixão de Kautsky é que seu centrismo está exposto como a chave para a derrota da Revolução Alemã. É Kautsky e a USPD que atrasam a fundação do KDP alemão até chegarem muito tarde, depois assumem a responsabilidade pela repressão estatal dos comunistas, derrotam a revolução e assim evitam que a revolução russa se espalhe para o mundo. No entanto, este é o programa Kautsky do Erfurt que os neo-kautskistas como os do CPGB querer voltar a hoje!

 

O Partido incorpora o programa

Para Marx, o partido proletário é o partido marxista. O Programa Gotha recuou do método de Marx e sua crítica ao capitalismo à teoria do intercâmbio pré-marxista de Lassalle. O programa de Erfurt restaurou formalmente a crítica marxista do capital ao retornar à produção de mais-valias, mas não escapou do programa Gotha em sua abordagem reformista ao estado capitalista. No SPD, o partido “amplo” submergiu os revolucionários em uma onda crescente de oportunismo. A crítica de Engels foi ignorada como Marx foi em Gotha. Kautsky vulgarizou Marx, ignorando as leis do desenvolvimento capitalista, as crises de superprodução e a crescente competição entre os poderes imperialistas. A guerra imperialista que se aproximava era algo que poderia ser interrompido por uma maioria de SPD no Reichstag agindo com “legalidade”! Isso teve trágicas conseqüências práticas para milhões de trabalhadores no mundo mais de 1000 vezes o da Comuna de Paris. E desta vez foi feito em nome do marxismo!

Hoje contra o programa e o partido de Kautsky, precisamos do programa e do partido de Marx. De Marx e Engels, em 1847 a Lênin, em 1924, o partido de massa marxista sempre teve como base trabalhadores que entenderam que para escapar das inevitáveis crises capitalistas e guerras imperialistas seria necessário esmagar o Estado burguês e impor a Ditadura do Proletariado. Se estivesse próximo disso quando sua liderança se adaptasse aos super-lucros imperialistas e à aristocracia trabalhista, então, o “partido” acabaria por ser usado pela burguesia para destruir a revolução. Tal retração para o socialismo vulgar era inevitável, a menos que uma vanguarda marxista fosse construída capaz de tirar as lições importantes de organizar e armar o proletariado para esmagar o estado e substituir o sistema capitalista de crise e guerra pelo socialismo. A Revolução Alemã foi derrotada por falta de um programa revolucionário do partido. Marx e Engels lutaram para testar e desenvolver o programa comunista todas as suas vidas contra as correntes não-marxistas e depois as correntes marxistas-revisionistas. Lenin e Trotsky assumiram a responsabilidade de defender e desenvolver esse programa após a morte de Engel. Lenin, em particular, assumiu a liderança na luta contra o oportunismo no período anterior à Primeira Guerra Mundial. É por isso que os bolcheviques sob Lênin e mais tarde Trotsky, e não o SPD alemão sob Kautsky e cia, foi o único partido marxista a derrotar o reformismo e o centrismo e fazer uma revolução.

Deixe Lenin ter a última palavra sobre Kautsky: “Kautsky leva do marxismo o que é aceitável para os liberais, para a burguesia (a crítica da Idade Média e o papel histórico progressista do capitalismo em geral e da democracia capitalista em particular) e Descarta, passa em silêncio, esclarece tudo no marxismo que é inaceitável para a burguesia (a violência revolucionária do proletariado contra a burguesia para a destruição deste). É por isso que Kautsky, em virtude de sua posição objetiva e independentemente do que suas convicções subjetivas podem ser, prova inevitavelmente ser um lacaio da burguesia “. (A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky).

Quem é o renegado, Lenin ou Kautsky? Os renegados do marxismo são aqueles que abandonam o programa da Ditadura do Proletariado. A maior parte do que passa para a esquerda revolucionária de hoje são centrists de longa data conhecidos por suas frases revolucionárias e prática reformista! Eles surgiram da Segunda Guerra Mundial com o estalinismo intacto e um “2º mundo” oposto ao primeiro mundo imperialista. À quarta internacional trotskista faltou raízes na classe trabalhadora e seus esforços para manter o programa leninista / trotskista vivo fundado no longo crescimento e no reformismo dos partidos stalinistas e social-democratas. A maioria revisou o “Capital”, de Marx, em alguma forma de teoria da troca e desencadeou a consequência prática de um programa mínimo de “direitos iguais” através de “auxílio estatal”. Assim, a maioria tornou-se adjuvante da social-democracia, do stalinismo ou dos lutadores da liberdade do terceiro mundo.

A restauração do capitalismo na União Soviética e outros antigos “estados operários degenerados” os privou de sua defesa da propriedade dos trabalhadores. Alguns como a família espartaquista insistem que a esperança vive na China. Outros se liquidam em formações “anti-capitalistas” que são “partidos amplos”, incluindo reformistas e revolucionários. Aqueles que ainda atrelam-se falsamente ao leninismo (e / ou trotskismo), e aqueles que são anti-leninistas, acabam no mesmo pântano centrista. Eles são um novo lote de mencheviques com programas mínimos e lideranças mesquitas que substituem a vanguarda marxista. Por exemplo, os espartaquistas substituem a burocracia maoísta na China; Os morenistas substituem a burocracia sindical; Os Cliffites, os intelectuais estudantis; E os woodites, demagogos e populistas como Chávez – todos amarrando o proletariado em frentes populares com a burguesia.

No entanto, esses pretendentes pequeno-burgueses não podem suprimir as contradições de classe à medida que emergem nas crises, guerras, revoluções e contra-revoluções atuais e futuras. Os revolucionários devem atuar como uma vanguarda de centenas e milhares para expor os centristas construindo frentes unicas militantes em todos os lugares com demandas que promovem a causa dos trabalhadores e forçam os centristas a declararem-se como traidores da classe. No processo, a vanguarda embrionária irá, como os bolcheviques de Lênin, convergir e se unir aos milhões de militantes em ascensão para construir um novo partido mundial de revolução. Uma Internacional revolucionária marxista renascerá quando a crise terminal do capitalismo expuser o novo lote de mencheviques como traidores de classe.

Surgindo das cinzas de traições históricas e derrotas do século XX marcadas pela primeira revolução bolchevique, serão os marxistas revolucionários baseados no programa leninista / trotskista de 1938 que irão inserir-se na classe trabalhadora para construir a vanguarda marxista, para fazer a segunda Revolução bolchevique no século XXI.

“A vitória do comunismo é inevitável, o comunismo triunfará!” Lênin, “Saudações aos comunistas italianos, franceses e alemães”. Outubro de 1919

 

 

 

 

Traduzido por Marina Finatto

Original em http://redrave.blogspot.com.br/2013/04/rebooting-lenin.html

 

 

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1 comentário

  1. raved · agosto 9

    Republicou isso em Living Marxism.

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